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A favor do Parkour, contra competição! “Corra sem rivais”

Ao ver as manifestações dos praticantes de Parkour a respeito das competições que estão acontecendo nos últimos anos (Barclaycard Freerun Championship e o MTV Parkour Challenge) e o post do Eduardo Rocha (duddu) no blog Pulo do Gato resolvi trazer para vocês o manifesto escrito por Duncan Germain e Erwan Le Corre postado no blog  – Pro Parkour Against Competition.

Eu, particularmente, escolhi uma profissão na qual lidarei com vários esportes diariamente, e quase sempre, competições são a base da prática. Mesmo assim, acredito que o diferencial do Parkour é justamente esse, e farei o que for possível para preservar. Os iniciantes dos treinos que eu e o Lucas fazemos semanalmente estão sempre ouvindo e participando de conversas sobre o rumo que o Parkour está tomando. Manter o Parkour puro, livre de competições, como foi idealizado desde o princípio é dever nosso, e para isso precisamos de argumentos.

Leia abaixo o artigo e se quizer acesse a area de downloads do blog Pulo do Gato clicando aqui.

 

A FAVOR DO PARKOUR, CONTRA COMPETIÇÃO!
“Corra sem rivais”

Originalmente por: Duncan Germain e Erwan Le Corre
Tradução e adaptação: Eduardo Rocha (duddu)

Os membros desta comunidade são fortemente contrários a idéia de competições organizadas de Parkour.
Nossas razões:

1.
a. Não acreditamos em elites.
b.
Não acreditamos em nenhuma forma de distinção entre os praticantes.
c. Não acreditamos na necessidade de se criar qualquer forma de hierarquia de habilidades entre os praticantes.
d. Acreditamos que “o melhor” não significa nada dentro do Parkour, pois vencer ou perder também não tem a menor importância para a filosofia.
e. Não aceitamos tal princípio como parte da filosofia do Parkour.

Ao contrário: Acreditamos que o motivo por qual se treina deve somente, e sempre, ser um chamado interior. Esforçamos-nos para sermos fortes, por nós mesmos e pelos outros. Não queremos ir de contra outras pessoas, mas treinarmos com elas e por elas.

Portanto, rejeitamos e desencorajamos qualquer forma de rivalidade entre os praticantes. E fazemos o inverso: valorizamos a solidariedade e o respeito mútuo para obtermos sucesso tanto como indivíduos quanto como comunidade.

2. Acreditamos que vai de contra a filosofia do Parkour competir pela vitória ou pelo ganho de qualquer outra coisa que não faça parte dos valores da atividade. Como por exemplo: medalhas, prêmios, troféus, dinheiro, fama, reconhecimento ou glória. O mesmo se aplica aos que buscam exibicionismo para o público.

 Ao contrário: Procuramos não cobrar nada e beneficiar todas as pessoas com as nossas ações. Almejamos também benefícios que todos possam compartilhar. “Somos doadores, e não receptores.

3. A competição encoraja que a pessoa despreparada sacrifique sua saúde por uma breve vitória, ou para conquistar um título que não tem valor algum. Ela força que competidores de elite constantemente e repetidamente arrisquem o seu mais precioso bem, a saúde, em busca da obsessão e da obrigação de obter a vitória, ou qualquer outro benefício como: dinheiro, posição ou prestígio, aumento do ego, contratos profissionais e comerciais e acordos remunerativos. Isso leva o praticante a desregular o seu treino e focar-se somente em habilidades específicas que deve adquirir para vencer, conduzindo-o assim a lesões crônicas. Apesar das negações oficiais, o uso de doping está relacionado a todos os tipos de competições, seja com envolvimento de dinheiro ou não. Acreditamos que a conseqüência física de se participar de competições de alto nível é contra a filosofia do parkour, pois a ênfase da atividade reside na moderação e na necessidade de fortalecimento.

Ao contrário: O Parkour é uma atividade humilde, paciente e pra toda a vida. O corpo humano necessita desse condicionamento para assegurar sua resistência e longevidade. Moderação é um dos valores mais importantes no Parkour e é uma qualidade indispensável para a preservação de si mesmo e para o fortalecimento do corpo. Portanto, rejeitamos qualquer coisa que vá de contra essa moderação e provoque agressões ao corpo.

4. O Parkour não pertence às corporações, patrocinadores, mídia, e pessoas que ficam somente sentadas para assistir. Acreditamos que nós NÃO devemos apoiar atividades e projetos que utilizem o nome do Parkour e que venham a manchar seu nome e divulgar ao público e na mídia uma atividade que NÃO condiz com a disciplina; ignorando assim a resistência da maioria das comunidades contra tais intenções.

Ao contrário: Afirmamos que Parkour é uma disciplina não competitiva que pertence a todos os seus praticantes, as comunidades locais, aos grupos e amigos e a raça humana de uma forma geral. Acreditamos que devemos permanecer unidos e contra essas ambições que não refletem a filosofia original e que desrespeita tanto a ela quanto a todos da comunidade.

Competição não é inevitável – é apenas mais um obstáculo!
Apóie o Parkour original e mantenha a nossa disciplina livre!

Tradução do Banner:
“A Favor do Parkour, Contra Competição.
Mantenha o Parkour livre e verdadeiro.
Adicione isso a sua assinatura para mostrar o seu apoio”

De A à B da forma mais difícil possível

Alguns dias atrás eu estava me movimentando em casa, por falta do que fazer, tédio ou qualquer outra coisa. Aqueles momentos que todo praticante de parkour conhece bem. Essa idéia de pisar em um azulejo aqui e outro ali, pular ali e subir aqui, ir da cozinha à sala sem pisar em determinado lugar, etc. acabou gerando em minha mente essa frase que usei como título do post. Agora vou me explicar melhor.

Pare por um momento e pense num treino simples de parkour, aqueles sem lugares altos, buracos gigantes, prédios enormes e corrimões finos. Não é tão difícil imaginar isso, já que muitos dos treinos em várias cidades do Brasil acontecem sem essas ‘situações de alto risco’. Logo um degrau distante de um meio-fio, um corrimão de uma escada, um murinho pequeno e muitas vezes até uma linha diferente no chão já se torna um ‘obstáculo’.

O Parkour acaba se tornando uma alternativa diferente de movimentar-se em determinado ambiente. Muitas vezes o que aos olhos dos ‘leigos’ no assunto é insignificante, para um de nós, praticantes, trata-se de um local ideal para ‘perder’ (ganhar) horas de treino. Mas será que estamos realmente facilitando nosso percurso? Eu diria que não.

Nos nossos treinos, tentamos imaginar uma situação real, um possível momento, em um possível lugar, com um possível risco, um possível perigo e com esses possíveis treinamos horas, dias, meses e anos em um lugar. Justificando o titulo, o que fazemos na verdade é nada mais que dificultar o percurso.

É fácil subir pela escada, dar dois passos para chegar à um lugar ao invés de pular, mas nós não queremos o fácil, buscamos sempre o mais difícil. Quando um movimento é ‘conquistado’ pelo grupo de praticantes, alguém surge com uma nova idéia, fazer o movimento e um girinho, ou com um pé, ou uma mão, e a criatividade nunca acaba nessa arte de dificultar a movimentação.

Agora não pense que acho isso ruim, muito pelo contrário. É nesse ponto que queria chegar. O ser humano é um bicho muito complexo, precisa de dificuldades para evoluir, aprender e desenvolver qualquer atividade. Aquilo que é fácil e simples normalmente não trará nada de novo para você. O aprendizado vem da resolução de um problema.

Quando fazemos coisas que para muitos são inúteis ou idiotas, como por exemplo, pular de raiz em raiz de uma árvore sem pisar na grama, estamos criando um problema, “não pode pisar na grama” e buscando soluções “vamos pular de raiz em raiz”. E é isso que traz a evolução no Parkour. A dificuldade leva ao aprendizado e ao crescimento.

Talvez seja por isso que comparem parkour com brincadeira de criança. Crianças de 2 a 7/8 anos são as campeãs nos quesitos imaginação e criatividade. Segundo os autores desenvolvimentistas eles estão em uma fase chamada Fase de Movimentos Fundamentais, que irão desenvolver toda a base motora que será utilizada por toda a vida, seja numa corrida ou em qualquer esporte.

criança-parkour-natural

Esse período de nossas vidas trata-se de uma fase de grande evolução no que diz respeito à movimentação. As crianças usam sua imaginação fantástica para criar problemas, e as dificuldades impostas por elas mesmas, graças à criatividade sem fim, irão proporcionar seu desenvolvimento motor.

Mesmo que a possível situação para qual treinamos várias horas, dias e anos nunca chegue, o que temos que ter em mente é que não há momento de perigo que pague a evolução que o parkour traz nos nossos treinos. Voltamos a ser crianças, a usar a criatividade, a inventar, a dificultar e o mais importante, a evoluir.

Hoje vejo o parkour como ‘Ir de um ponto A à um ponto B da maneira mais difícil possível’ ou ‘Ir de um ponto A à um ponto B evoluindo o máximo possível’. Acredito que o girinho, a queda com 1 pé ou qualquer dificuldade ‘inútil’ acrescentada a um movimento simples vai fazer toda a diferença no nosso desenvolvimento como traceurs. É isso, espero que tenham me entendido. Ah… só pra lembrar, dificultem. (:

“É importante criar dificuldades para os que têm talento. As facilidades nos limitam.” (Bernardinho)

Movendo-se através do medo.

Estava fuçando o PC hoje, procurando coisas antigas e apagando coisas inúteis. Até que achei algo bem interessante, que me foi de grande ajuda no começo dos treinos. Moving Through Fear (Movendo-se através do medo), é um artigo feito por Dan Edwardes, um dos diretores da Parkour Generations. O texto é de 2006, e não sei exatamente quem o traduziu, mas se o tradutor estiver lendo isto, me avise!

Boa leitura!

 

Por: Dan Edwardes / Tradução: Guilherme 

São os pequenos medos que sutilmente roubam nossas vidas. Os grandes valores – morte, perda, o sentido da vida… isso, geralmente, nós podemos ignorar e ignoramos na maioria de nossos dias. Filósofos e teólogos podem refletir sobre os detalhes de tais questões, mas a maioria das pessoas não têm tempo, ou procuram evitar esses pensamentos, ou apenas têm sorte por não serem massacradas por muita curiosidade. Muitos medos são racionais, naturalmente, e podem ser amigos de nossas vidas; o medo que aumenta nossa atenção em uma parte escura da cidade, por exemplo, ou o medo da queda que nós nos temos ao estar perto da beirada de um penhasco em um dia ventoso.

O medo, entretanto, é uma besta inteligente. É atrás da fachada amena do medo que repousa o real perigo, venenoso como a cauda do escorpião, sempre pronto a atacar.

Quanto de seu dia é “dedicado” aos pequenos medos? É mais do que você pensaria, a princípio. Os pequenos medos são os tipos de medo que nós mal notamos, no entanto ignoramos raramente. São os que fazem cada dia confortável: o medo da exclusão que nos inclina a ficarmos conformados em muitas situações; o medo de ser ridicularizado que nos silencia quando nós gostaríamos de rir espalhafatosamente; o medo da rejeição que faz com que nós evitemos muitas conexões em potencial. Nós já estamos acostumados com esses medos, pois eles se infiltram em nosso dia-a-dia sutil e suavemente, com o mínimo de conflito possível. São os medos que nos fazem cumprir o horário de trabalho, que nos impedem de desafiar a opinião e os métodos de nossos superiores.

O medo assegura-nos de estar constantemente na defensiva, respondendo sempre no presente aos nossos piores pensamentos do que o futuro trará se nós não nos prepararmos. O medo das conseqüências limita as ações que nós executamos. O medo se torna o ator em nossas vidas, enquanto nós gradativamente nos juntamos à audiência, assim tornando-nos espectadores passivos dos eventos rotineiros de cada um de nossos preciosos dias. Assim, nós desperdiçamos nosso tempo rebaixando-nos a estes medos, e nossas vidas passam despercebidas, sem dar chance a lamentações posteriores.

Mas o que isso tem a ver com o Parkour?

Tudo: praticar Parkour é procurar o medo diariamente, confrontá-lo cara-a-cara, enfrentá-lo despido e sozinho. No Parkour, você é descascado à sua essência. Não há nenhum equipamento para se confiar, nenhum fio de segurança ou estofamento para protegê-lo, nenhum colega da equipe para dividir o cansaço quando você está exausto. É você, apenas você. As únicas coisas que o impedem que você se machuque são suas qualidades, seu julgamento, sua habilidade – e de nenhuma outra pessoa. Isso é uma grande verdade; e também pode ser um grande fardo. É apenas você quem enfrenta seus medos; as teorias das outras pessoas não têm nenhuma importância aqui. Você não pode compreender seus medos de acordo com Freud ou Jung ou qualquer um – eles não estão com você quando você dá um Cat-leap ou faz um rolamento, eles não estão lá quando você executa um Vault. Nestes momentos só existe você.

Parkour é movimento, e todo o movimento está conectado ao medo. É através de um princípio chamado fear-reactivity, ou reação ao medo, que o nosso corpo aprende o que não fazer, por que não se mover em dado instante, por que não cair de alguma altura. Nós aprendemos a evitar a dor e a procurar o conforto, e se nós experimentamos algum desconforto devido a certa ação, nosso corpo normalmente nos desencoraja a tentar aquela ação em particular novamente. Resumindo, fear-reactivity é o nosso padrão de comportamento envolvendo movimento, respiração e postura. É “uma reação condicionada ao estresse, choque ou trauma. Isso se aplica a cada um de nós; ninguém escapa disso.”

Obviamente, esta condição faz parte do passado. Nosso corpo reage no presente ao medo daquilo que ocorreu no passado. Assim, o medo faz parte do passado. Ele vive na memória, e de lá é projetado ao futuro, e normalmente nós nos vemos vivendo no medo em um ou outro – no passado ou no futuro. Na verdade, isso significa que, no presente momento, o medo não existe .Então para estarmos livres do medo, o que nós devemos fazer é viver nesse presente momento, viver aqui e agora. Não é fácil, mas o Parkour é uma disciplina que pode nos ajudar nessa tarefa.

É correto dizer que nosso potencial físico natural está muito além do que nós nos limitamos a fazer. É a nossa condição física e mental que nos previne de acessar essa habilidade natural. Consequentemente, não é tão difícil adquirir habilidades e técnicas que irão nos levar a explorar esse talento, mas de preferência nos livrando de nossas próprias restrições. Não se trata de um aumento regular, mas uma diminuição regular. Nós só precisamos libertar nossas mentes para obter nosso potencial. Nós precisamos eliminar nossos medos para despertar nossa habilidade natural e graça. Tanto mentalmente quanto fisicamente, a prática da nossa Arte demanda que nós estejamos totalmente focados naquele momento e livres de limitações anteriores. E é nesse momento de pura prática que nós podemos começar a superar nossa fear reactivity, estando atento a ela e livrando-nos de seus padrões.

Tudo faz parte de um processo. Observe a si mesmo. Repare nas dúvidas, nos receios, nos pensamentos negativos, e na tensão de seu corpo enquanto você se move. Repare que todas essas coisas são escolhas que você pode fazer. Tensão é uma escolha. Faça um teste. Faça um rápido auto-diagnóstico de seu corpo e você irá notar que alguns músculos estão desnecessariamente tensos: agora escolha relaxar esses músculos. Fácil, uma vez que você está ciente de onde a tensão está. O truque está em fazer com que isso se torne cada vez mais natural, e nós podemos facilitar isso estando cientes durante a prática. Dessa maneira nós aprendemos a escolher nossas ações e respostas ao invés de simplesmente sermos produtos de nossas reações. Daí vem a habilidade de alcançar o seu verdadeiro potencial, e daí vem a maestria. É aí que vive o FLOW.

Quanto mais você é capaz de focar sua atenção para onde você está, naquilo que você está fazendo, menos energia e pensamentos você dará ao medo. Tudo que restará é a pura e completa ação. Esse conceito tem muitos nomes através de várias culturas e filosofias – mas novamente, é o nome que outra pessoa deu a uma coisa que nao é sua. Pratique, experimente, explore isso; então você descobrirá que você não precisa ter um nome pra isso.

O medo é uma coisa estática, ele não existe no movimento. Imagine uma trilha na selva à noite. Você caminha pela trilha cuidadosamente, sua mente imagina um ataque repentino de uma cobra ou aranha que desce da folhagem acima; aí vem o medo, e ele cresce a cada passo que você dá. Entretanto, imagine o que acontece quando a cobra aparece realmente – você reage instantaneamente, seu corpo e mente assimilam o momento num esforço combinado para escapar do raio de ataque: o reflexo instintivo. Neste exato momento, o medo não existe. Todo o seu pensamento está voltado para a fuga, para o escape. O medo existe antes do ataque, e ele com certeza voltará após o ataque (se você for rápido o bastante, é claro), mas naquele breve momento o medo não existe.

Uma coisa fascinante é que por quase todo o tempo que você esteve na trilha, se sentindo apavorado, você esteve completamente seguro e não foi atacado. Por um breve período em que você estava realmente sendo atacado, o medo não existia mais. Tanto esportistas entusiastas de várias disciplinas quanto sobreviventes de situações extremas atestam a mesma coisa: nos momentos de grande pressão e necessidade, a ansiedade dá lugar às nossas habilidades escondidas (aparentemente sobre-humanas) para elas tomarem o comando. Nós nos movemos através do medo, e ele perde seu poder contra nós.

Agora imagine como seria expandir o momento de no-fear (não-medo) de maneira que ele se propague em todo o percurso. O estado resultante é de permanente cautela e prontidão, mas que não exige esforço ou paranóia; aliás, é exatamente o contrário da paranóia. É um estado de movimentos graciosos e eficientes, livre de fear-reactivity, de tensões musculares residuais e em harmonia com os pensamentos ao invés de conflito com os mesmos. Essa é a nossa verdadeira natureza, aquela que repousa escondida na maior parte de nossas vidas, aguardando o momento em que nós aprendemos a mover-nos diante do medo.

Você irá descobrir até mesmo que, sem medo, a trilha na selva escura se torna uma agradável experiência.